Por Altair Germano
Agostinho é um caso clássico de contradições, ao se buscar evidências na história para a sustentação de uma tese.
Martinho Lutero (1483-1546)
A informaçã de que Lutero foi um defensor da atualidade do Batismo com (no) Espírito Santo com a evidência do falar em línguas, aparece na obra de Orlando Boyer, "Heróis da Fé":
"Encontra-se o seguinte na História da Igreja Cristã, por Souer, Vol. 3, pág. 406:' Martinho Lutero profetizava, evangelizava, falava línguas e interpretava; revestido de todos os dons do Espírito."
Boyer foi citado também por Andrade (Idem, p. 105):
"Com a Reforma Protestante, testemunhar-se-ia o advento de um gigante espiritual que haveria de abalar irresistivelmente os alicerces da civilização. Foi este titã um autêntico pentecostal. Segundo o historiador Sour (sic), Martinho Lutero falava línguas, interpretava-as, profetizava e achava-se revestido de todos os dons do Espírito Santo."
Afirma-se que Souer viveu no século XIX, mais de 300 anos após Lutero. A sua obra parece conter a única afirmação registrada sobre a possibilidade de Lutero ter falado em línguas.
Temos aqui mais um problema de discordância em termos de relato histórico. Observe abaixo, o que Lewis escreveu (Idem p. 173, apud SYNAN, idem, p. 173) escreveu sobre Lutero (ex-monge agostiniano):
"Seguindo a linha de Agostinho e Crisóstomo, Lutero respondeu com a seguinte opinião acerca dos sinais, maravilhas e dons do Espírito Santo: O Espírito Santo foi enviado de duas maneiras. Na igreja primitiva, foi enviado de forma visível, manifesta. Assim ele veio sobre Cristo no rio Jordão, na forma de pomba (Mateus 3.16), e sobre os apóstolos e outros crentes, na forma de língua de fogo (Atos 2.3). Essa foi a primeira vinda do Espírito Santo; ela era necessária na igreja primitiva, a qual precisava ser estabelecida por meio de sinais visíveis, para convencer os descrentes, como Paulo testifica em 1 Coríntios 14.22: 'As línguas são um sinal para os descrentes, e não para os que creem'. Mais tarde, estando já a Igreja estabelecida e confirmada por aqueles sinais, a descida visível do Espírito Santo para continuar a obra não era mais necessária."
House (Idem, p. 84), cessacionista declarado, escreve:
"E Matinho Lutero? Longe de apoiar as ideias dos carismáticos dos seus dias, Lutero era ferozmente oposto a elas. Durante a ausência de Lutero no Castelo de Warteberg, os carismáticos assumiram a liderança em Wittenberg. Foi somente a pregação de Lutero que trouxe a sanidade de volta a Wittenberg, salvando a Reforma de um espírito de fanatismo e desintegração".
No caso de Lutero, duas coisas precisam ser consideradas, para que se chegue a uma conclusão sobre a sua posição acerca da atualidade do Batismo com (no) Espírito Santo:
- O que o próprio Lutero escreveu sobre isso? Alguns afirmam que nada.
- Por que com a Reforma não temos o resgate das crenças e das experiências pentecostais norteando ou presente claramente no movimento? Seria pela urgência em combater os abusos doutrinários e eclesiológicos do catolicismo romano? Seria realmente pela posição cessacionista de Lutero?
John Wesley (1703-1791)
O nome de Wesley é o terceiro citado na lição bíblica, também cercado de controvérsias.
Em seu livro "Batismo no Espírito Santo" (2000, p. 38), o pastor Enéas Tognini, líder do movimento de renovação nas igrejas batistas no Brasil, fala sobre Wesley: "João Wesley converteu-se a Cristo e, depois de mais ou menos dois anos após a sua conversão, foi batizado no Espírito Santo [...]".
Na obra "Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento" (Ibidem, p. 105), publicada pela CPAD e aprovada pelo Conselho de Doutrina da CGADB, o pastor Claudionor de Andrade escreve:
"No século 18, temos a destacar os irmãos Wesley e o príncipe dos pregadores ao ar livre, George Withefield. De conformidade com um relato fidedigno da época, foram os três de tal maneira visitados pelo Senhor que, certa vez, rolaram pelo chão, tamanho era o poder e a graça experimentados".
Nesta citação de Andrade, não fica claro de qual "relato fidedigno" se trata, nem se houve batismo com (no) Espírito Santo com a evidência de falar em línguas.
A questão sobre Wesley e o Batismo com (no) Espírito Santo se agrava, quando analisada à luz da obra "Teologia de John Wesley", escrita por Kenneth J. Collins, publicada pela CPAD (2010, p. 177-178), igualmente aprovada pelo Conselho de Doutrina da CGADB:
"Wesley e os metodistas, ao longo de boa parte do século XVIII, foram acusados de valorizar demais os dons, ou carismas, do Espírito Santo. Apresentando uma diferenciação entre dons extraordinários (como de cura, de operar milagres, de profetizar, de discernir espíritos e de falar e interpretar em línguas) e os comuns (de discurso convincente, de persuasão, de conhecimento, de fé e da facilidade para oratória), alega em uma carta para o Sr. Downes, pároco da Igreja St. Michael, que "repudia totalmente os 'dons extraordinários do Espírito' e todas as outras 'influências e operações do Espírito Santo' que não sejam aqueles comuns a todos os verdadeiros cristãos. Na verdade, o próprio Wesley, à parte de seus detratores, afirma o mérito de fazer essa distinção para que a igreja 'pudesse parar o crescimento do entusiasmo', o que hoje chamamos de fanatismo. Na percepção de Wesley, os dons extraordinários foram concedidos à Igreja Primitiva para que, por meio deles, 'Deus reconhecesse os cristãos como seu povo, e não judeus'. Ou seja, Wesley argumenta que as 'exigências da ea apostólica', demonstrando que o caminho da salvação flui apenas por intermédio de Jesus Cristo, 'requeriam os dons milagrosos, mas eles logo cessaram'.
O texto acima foi publicado originalmente na obra de Thomas Jackson, "The Works of. Rev. John Wesley", escrita entre 1829-1831, e publicada em Londres, em 1978, pela Weslyan Methodist Book Room.
Charles Finney (1792-1875)
O nome de Charles Finney é citado como alguém que vivenciou a experiência de Pentecoste por Andrade (Ibidem, p. 105) e Tognini (Ibidem, p. 38).
Um artigo no site da Igreja de Nova Vida, retirado do Jornal Tombeta de Sião, e intitulado "O Protestantismo e a Doutrina Pentecostal", confirma a declaração de que Finney, conforme escrevera em uma autobiografia, foi batizado com (no) Espírito Santo:
"Recebi um grande batismo no Espírito Santo [...] não sei se deveria dizer, mas não pude me conter e balbuciava palavras inexpressivas do meu coração [...]".
Discorrendo ainda sobre a evidência da manifestação de línguas na vida de Finney, o articulista cita James Gilchrist Lawson (1874-1946), que em seu livro "Profundas Experiências de Cristãos Famosos", escreveu :
"Em algumas ocasiões o poder de Deus se manifestava em tal grau nas reuniões de Finney, que quase todos presentes caíam de joelhos em oração, ou melhor, oravam com lamentos e queixumes inenarráveis pelo derramamento do Espírito de Deus".
Até onde cheguei em minhas pesquisas sobre Finney, não encontrei oposição quanto aos fatos acima narrados.
Em se tratando de Withefield e o Batismo com (no) Espírito Santo, temos mais uma vez problemas.
Andrade (Ibidem) e Tognini (Ibidem), afirmam positivamente sobre as evidências do Batismo com (no) Espírito Espírito Santo em sua vida. Erroll House (Ibidem, p. 83) não concorda com este ponto de vista, e afirma:
"Muitos viram retratadas nas vidas de grandes pregadores sua noção favorita do batismo do Espírito. Sei de tais defensores que procuram fazer isto com George Whitefield. O Dr. Arnold Dallimore, que é responsável pela mais proeminente biografia de Whitefield, publicada em dois grandes volumes pela editora Banner of Truth, declara que tal afirmação não pode ser substanciada no caso de Whitefield. Ele é corretamente visto como o mais poderoso pregador da língua inglesa, até hoje; e ainda assim, ele se opôs fortemente à ideia de dois estágios de experiência cristã. [...] Que cada crente recebia 'o selo do Espírito' foi um elemento essencial da doutrina de Whitefield e ele nunca defendeu o ensino pentecostal como é conhecido hoje".
É bom lembrar, que as contradições das narrativas aqui citadas, em nada diminui a verdade sobre a atualidade do Batismo com (no) Espírito Santo com a evidência do falar em línguas.
Poderia avançar nesta abordagem histórica, o que farei quando da publicação destes textos em um futuro livro.
Para o blog, fico por aqui, entendendo que o levantamento destas questões deverão promover uma maior pesquisa sobre os fatos aqui descritos, além de proporcionar a oportunidade de outros cooperarem com informações que por um acaso não foram aqui colocadas, visto a limitação da bibliografia pesquisada por este autor.
Farei qualquer correção neste texto, caso as informações aqui expostas sejam convincentemente e cientificamente refutadas com as necessárias provas.
Livros Consultados
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fundamentos bíblicos de um autêntico avivamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
BOYER, Orlando S. Heróis da Fé. 15. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: Uma história da igreja cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1988.
CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro séculos da igreja cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
HULSE, Erroll. O Batismo do Espírito Santo. São José dos Campos-SP: Fiel, 2006.
OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida, 2001.
SHERRILL, John L. Eles falam em outras línguas. São Paulo: Arte Editorial, 2005.
SYNAN, Vinson. O século do Espírito Santo: 100 anos de avivamento pentecostal e carismático. São Paulo: Vida, 2009.
TOGNINI, Enéas. Batismo no Espírito Santo. São Paulo: Bompastor, 2000.
Periódicos Consultados
Lições Bíblícas. Atos dos Apóstolos: até aos confins da terra. Rio de Janeiro: CPAD, 1º trimestre/2011.
Manual do Obreiro. Atos dos Apóstolos: A ação do Espírito Santo na Igreja e através da Igreja. Rio de Janeiro: CPAD, ano 34, nº 52, 1º trimestre/2011.
Sites Consultados
Glossolalia religiosa. Disponível em http://pt.wikipedia.org, acessado em 28/12/2010.
James Gilchrist Lawson. Deeper experiences of famous christian. Disponível em http://www.archive.org, acessado em 28/12/2010.
Lutero profetizava e falava em línguas. Disponível em http://www.lideranca.org, acessado em 28/12/2010.
O protestantismo e a doutrina pentecostal. Disponível em http://www.invsc.org.br, acessado em 28/12/2010.
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